João Paulo Machado
2025
Em tempos de crises, conflitos, velocidade e excesso de informação, o consumo de arte pode parecer banal para muitos. No entanto, a experiência artística é um recurso poderoso no desenvolvimento não apenas intelectual, mas também emocional e social.
Recentemente, estive em São Paulo a trabalho. Entre compromissos profissionais, reservei algumas horas para visitar o MASP e seu anexo recém-inaugurado. Lá, pude apreciar duas exposições memoráveis: A Ecologia de Monet e Reencontrar a Árvore, do artista Frans Krajcberg. Ao longo da minha visita, entre a praça cívica e as salas de exposição, observei o público ao redor: pessoas de diferentes etnias, idades, nacionalidades. Pessoas tão distintas entre si, conectadas por uma mesma experiência. E foi a partir dessa constatação que compreendi ou talvez apenas redescobri o papel da arte em tempos complexos como o nosso.
O artístico é um dos poucos contextos em que as diferenças não se confrontam ou ofendem, mas simplesmente se encontram. Em um mundo marcado por polarizações políticas, culturais, ideológicas, a apreciação de uma obra de arte convida à pausa, à escuta e à interpretação. São atitudes escassas, mas fundamentais para qualquer sociedade que aspire à convivência saudável entre seus membros.
Mais do que oferecer beleza ou provocar admiração, a arte tem o poder de desenvolver empatia e sensibilidade. Ela nos ensina a reconhecer a condição alheia, a nos espantar com o banal e a refletir sobre aquilo que, no cotidiano, passa despercebido. Sozinha, ela não resolve os conflitos do mundo, mas pode mudar a forma como nos posicionamos diante deles.
Ao entrar em contato com manifestações artísticas, sejam elas visuais, literárias, musicais, nos colocamos, ainda que por instantes, no lugar do outro. O artista compartilha sua visão de mundo, e o espectador se torna testemunha sensível dessa experiência. Nesse momento, as diferenças ficam de lado e emerge aquilo que nos torna humanos: a capacidade de sentir, interpretar, imaginar e se conectar.
É por isso que, mais do que um privilégio, o acesso à arte deveria ser entendido como um direito e, mais ainda, como uma prática necessária. Quanto mais pessoas desenvolvem sensibilidade e empatia, mais espaço há para o diálogo, o respeito e a construção coletiva de soluções. Consumir arte não é uma fuga da realidade, é uma forma de encara-la com mais profundidade e compaixão. Em vez de reduzir a arte tão somente à função de decorar ou entreter, é preciso também reconhecê-la e intencionalmente utiliza-la como ferramenta de transformação pessoal e social.